domingo, 3 de fevereiro de 2013

O despertar de um amor que começa em nós

                                           

   (Texto de Conceição Honorato Oliveira)

Hoje escutei algo tão sublime de uma jovem viúva. A dois anos de luto pela emboscada desleal ao fenecer da vida de seu marido, lutando em preservar semanticamente o luto. Na grande maioria, o luto é um processo durante o qual um indivíduo consegue desligar-se progressivamente da perda de um ente querido.
No caso desta jovem senhora, sua dor advém da ruptura de uma história de amor vivida intensamente, incondicionalmente com tanta profundidade - Um sentimento tão puro e forte. Preservá-lo será objeto de uma vivência intensa aos momentos passados. Um tributo prestado a alguém tão vivo em seu coração.  E, mesmo partindo desta vida, o princípio de existência, de força, de entusiasmo, foi marcado na essência de suas doces lembranças. Seu amor partiu para morar na terra adubada do seu coração.
Amor assim - Como alcançá-lo? Como permitir desabrocha-lo?
Certo dia esta senhora após tantos anos, recebeu uma ligação. Do nada. Uma luz no final do túnel. Uma voz conhecida em meio ao desconhecido. Um amor fortuito vivido na adolescência, sobreviver às intempéries do tempo.
- Como pode algo assim sobreviver a tanto tempo? Uma marca indelével. Uma lembrança navegada nas águas translúcidas da emoção. Uma cristalização mantida ao som do vento suave, da leveza do tempo, ecoar em meio às lacunas veementes do coração. Terra do eu íntimo e indescritível.
Separados um dia pelo ultimato do pai ao desabonar o seu namoro por ser jovens demais - argumento usado pelo seu genitor na época, a filha tão somente ouviu, escolheu não magoar o mesmo, e expressou laconicamente a ruptura de um relacionamento juvenil seguindo os passos de sua caminhada.
Seu relato revelou um misto de emoção. Uma fronteira temerosa quando a balança pendia para um dos lados - O amor puro e verdadeiro, rompido funestamente por um ataque fulminante do coração e um despontar quem sabe de um novo amor.
Um sincretismo veemente. Qual doutrina seguir? - O que fazer mediante a síncope da emoção, às vezes, vista como sabotagem de uma afável história de amor? - O que dizer a uma voz do outro lado do mundo, distantes a linha do tempo? - O que fazer durante uma provocação doce e afável ecoar – Nunca te esqueci! - Como agir diante de uma situação não planejada, não vislumbrada, não desejada, pelo menos nos dissabores presentes em sua vida, após a partida do seu grande amor?
- Seu coração estava fechado para balanço, trancado a sete chaves, cujas chaves estavam jogadas ao labirinto do nunca. As portas estavam lacradas ao acesso de um novo amor!
Às vezes, passo a indagar se o despertar de um amor será resultado de um cultivo íntimo e pessoal? Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição, uma afinidade movida pelo entusiasmo ou grande interesse.
Penso que o brotar desta essência chamada amor, deva pulsar da consciência íntima do ser humano. Sua percepção deve refletir o que se passa em nosso interior. Uma delicadeza sedutora ao atrair naturalmente aqueles que comungam deste mesmo pensar. São ondas emitidas pela própria crença no amor refletido no universo alheio.
- Como se fazer presente na vida das pessoas em meio às turbulências da vida?
Aquela voz pronunciada pausadamente exprimia um sentimento aquietado em sua memória. Sentimento adormecido, talvez, como um sono reparador, tranquilo e aconchegante, despertado, quem sabe, ao sonho do encontro, de um dia esperado, nas aspirações de um vagão viajante das trilhas da saudade.
Discorro sobre o modo como se relacionar com as pessoas e a vida. Como reconhecer a importância de seu semelhante?
Penso como as pessoas que semeiam este sentimento, devem atrair para si o belo, o novo, assim como, admiradores e espectadores de sua plateia - Um eu pujante, altivo, no curso natural do frescor de suas ideias e leveza. Seu destino prima em aportar seu barco no porto do encontro.
Penso mais uma vez, na forma casual, como se deu o fato narrado pela jovem viúva. Sem pretensão alguma, alguém chegar ao quarto de uma memória insólita, sem ao menos saber da mudança da situação – Antes inquilino adquiriu subitamente e timidamente, a primazia de pertencer à morada conquistada um dia pelo afeto, respeito, primazia do apreço de família.
 As lembranças, muitas vezes, levitam gradativamente. São palavras lembradas, trocadas pela afabilidade, são gestos marcados pela magnitude do momento. Um perfume exalado nas tardes de outono, pelas gargalhadas presenciadas em meio à juventude. Este doce recordar, nos move a nos encontrar!
Os ritos de passagem em nossa vida quando saudáveis, se alimentam deste néctar – as boas e inesquecíveis lembranças, despretensiosamente, um dia, quem sabe, nos fazer uma surpresa.
Amar – um mistério selado pela centelha da vida. A crença de um sentimento gerado nas bases do nosso pensar, rabiscar as nuance de seu valor e do grande significado representado por este sentimento. A silhueta de um movimento chamado amor, um compasso cadenciado nas cifras de uma melodia, ecoar na linda canção ao revelar um segredo - vale a pena amar.
Viver a medida das oportunidades, de um sempre novo amanhecer e caminhar sem ao menos saber se vai chegar à terra que se quer apossar. A terra do coração, curvas equidistantes de um lugar silencioso, particular, inerente a cada pessoa. Talvez, o que menos, se pretenda, intencione pela posse legal de alguma coisa, como um direito garantido e incontestável.
 Posse não é conquista. Posse é força. É Propriedade adquirida. É apólice de nada. Obrigação ofuscada pela razão. Conquistar reflete em sua essência outra coisa. Conquistar significar ganhar um presente. Seu valor reverbera a leveza de um dia almejado. Conquistar transluz a beleza de um chegar almejado – uma noite despertada a um luar clareado; um olhar que se encontrar no espelho de outro olhar. Conquistar é dar a conhecer o que se deseja. Conquistar o respeito, admiração, confiança, roupagem de uma esperança cumplice e casual. O verdadeiro encontro sem amarras e o que amarra é a liberdade em desejar o outro, sabendo que ninguém é propriedade do outro - Ilusão é o nome desta conjectura. Seu destino é areia movediça.
Para amar o outro, é preciso se amar. Deus ao gerar o homem a sua imagem e semelhança, outorgou ao homem o arbítrio para o seu caminhar, porém, revelou o segredo da verdadeira felicidade: - Amar a Deus sobre todas as coisas (O Amor perfeito) e seu semelhante como extensão de si mesmo.
Amar a si mesmo remete ao resgate de uma confiança desafiadora aos embates despontados no cerne da alma, embora, algumas vezes, o nosso próprio eu passe a nos sabotar, nos envergonhar, nos subjugando ao um eu déspota e intransigente.
A coerência das relações conquistadas apresentam desfechos adversos. Atraímos pessoas atribuindo às mesmas, o poder de nos fazer feliz, embora, em certos momentos, o ser humano possa andar em linhas divisórias, fronteiras permeadas entre um eu merecedor e não merecedor – Um latejar sonoro ecoado as quatro cantos – Será que mereço ser feliz? - Será que devo aceitar este destino engessado e incontestável? Será o outro de fato, responsável pela felicidade? Será que o mesmo não busca incansavelmente por este mesmo alento?
Sorrateiramente um sentimento de resignação e acomodação se instala. Princípios que se estabelecem como verdades absolutas. Conclusão: - Nos tornamos reféns de uma vida sem sabor.
Ao respeitarmos à autonomia do outro, uma força natural nos impulsiona a voltar para o lar e abraçar o bem amado. O apetite da vontade se enche d’água. Sentimos impelidos a nos render a força da saudade enternecida. Semente germinada pelo arbítrio do amor.
As pessoas compartilham suas histórias e cintilam em nossas vidas como pequenas chamas lampejando uma história cheia de significados. Basta tão somente um dia. Um momento. Um compartilhar que nos levam a uma viagem ao nosso pensar, um refletir, um mudar despertado pelo poder da escuta.
Conhecer pessoas nos leva a uma fagulha de esperança. É preciso olhar para nós mesmos com um olhar diferente. Chegar ao porto do nosso interior e zelar por ele. Despertar primeiramente um interesse e empenho para si mesmo, pois, o amor revela algo encantador e impulsiona a um encontro inesquecível, levando a pessoa mais importante deste contexto: - Nós mesmos!


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Há momentos




Há momentos que dizem respeito tão somente ao nosso mundo insólito. Aqueles amanhecidos em nosso pensar, pujante e avassalador. Momentos reverenciados a Deus - um sussurro levado pela brisa do vento. Geralmente, ao entardecer. Sol se pondo nas montanhas. Céu cor de rosa cheio de algodão flutuante. É o momento do balanço das emoções. Como poeticamente escreveu Gonzaguinha ao tom musical – Viver e não ter a vergonha de ser feliz. ­
Há momentos permitidos por Deus para o nosso crescimento. Olhamos o horizonte, os raios dourados refletir timidamente “ ... Ao som do mar e à luz do céu profundo... Iluminado ao sol do novo mundo!”. Do nosso mundo interior. Há tanto a falar e por que não dizer – Há tanto há mudar!.
A vida é uma dádiva de Deus. Uma batalha permitida na concepção da existência cujo nascer por mais adverso que possa representar, talvez advindo em circunstância complexa, impulsiona uma certeza: - somos vitoriosos! Mesmo aqueles advindos de uma rejeição humana - Deus nos amou incondicionalmente a ponto de nos trazer a vida. O que fazer desta obra prima será resultado do respeito incondicional chamado livre arbítrio. Às vezes, me pergunto - Como seres humanos, semelhantes, segregam a oportunidade de ser feliz? Sim! Porque a felicidade não se encontra em poder de mortais iguais e passiveis das mesmas paixões. Deus é o segredo revelado a todos que desejam Conhecê-lo para viver esta plenitude. Pensem comigo. O homem segrega, Deus acolhe. O homem julga, Deus absorve. O homem fere, Deus cura. O homem discrimina e Deus nos vê igual. O homem é amargo. Deus é doce e suave. O homem determina, Deus nos dá possibilidades e respeita as nossas escolhas, mesmo aquelas que nos tornam distantes Dele. Ele aguarda nos amando, mesmo sendo rejeitado por nós. Resultado: - Tornamos o principio da convivência inóspita, inacessível, nos tornamos amargos deuses da verdade absoluta.
Casais que se aprisionam. A grande maioria busca em sua essência o reconhecimento e o desejo de ser feliz, mas não sabem exprimir tal sentimento. Infelizmente, tornam-se reféns duais ao achar que podem se apropriar de um bem humano. Uma linguagem incompreendida, às vezes, tácita e perversa. Com isso, o tempo passa, o sorriso fenece porque a alma chora e se amarga.
A convivência entre pessoas são temperadas pela insensatez, insegurança, não sabem mais despertar e conquistar a plenitude de uma amizade saudável. Aquela movida pela leveza de momentos indescritíveis – a famosa conversa lançada ao solo do rico diálogo sem cobrança, das gargalhadas temperadas pela pipoca compartilhadas por várias mãos ou do silêncio afável do estou aqui, sendo suficiente para nos sentirmos seguros.
Há momentos para abrirmos as portas do coração. O sentido da vida versa pela verdade criada e atribuída pela nossa própria razão. Não é fácil acordar e aquiescer uma verdade camuflada pela transferência de uma responsabilidade. O caos de um viver imputado ao outro, ruminando repetições e fracassos. Perdemos oportunidades para reconstruir nossa história e nos tornar feliz.
Há momentos que nos despertam a mudar. Desarrumar a casa, jogar entulhos armazenados há anos sem serventia alguma. Momentos de stop, de atenuar o peso balizado e mudar a polaridade. Aristóteles referia-se ao equilíbrio quando mencionava que o mesmo se encontrava no meio termo. O tempo efêmero e sagaz sinaliza a sabedoria da ampulheta. Esta não para um segundo que seja porque o retorno é areia movediça. Os passos desta trajetória chamada tempo só tem uma direção – é para frente que se anda. É para frente que se anda... tic tac...tic tac...tic tac...
Há momentos que precisamos andar. Para alguns - quanto tempo estagnado, presos a convicções chamadas ilusões. Para outros, é o tempo de acordar, alongar, respirar fundo e compassadamente para seguir um caminho sem fronteiras, sem idade, sem gênero, mas cheio de significados e cores despertadas pela midríase de um olhar contemplativo para um novo dia. A música desperta um canto nas passadas de um relógio que soa: -  tic...tac...tic...tac...
O navio aporta em terra firme para quem sabe fazermos escolhas. Momento para olharmos no espelho e contemplar um ser que merece ser feliz. Quem sabe hoje você possa enxergar o marcador de uma hora chamada meu tempo chegou. Aproveite o seu momento e escute o soar uma melodia tilintar -  tic... tac... tic tac...tic tac.

(Texto de Conceição Honorato)



sábado, 24 de setembro de 2011

O ESPELHO QUE NÃO VEMOS


Espelho - uma superfície lisa, um objeto polido que reproduz nitidamente, imagens que o defrontam. De repente, algo se revela, se reflete, reproduz.

Por outro lado, espelho pode tipificar um exemplo de vida. Fulano é um exemplo para todos nós, que maravilha! Ou, Que mau exemplo, nunca se espelhe em fulano, ele é um modelo que não se deve seguir.

Por que tantos embates entre os homens, cujas necessidades desaguam para o mesmo rio – ser feliz, ser reconhecido perante seu semelhante?

 Penso que agem desta forma como não se tivessem espelho. Não enxergam sua própria imagem mutável a cada segundo de vida. Penso que se vestem de clichês virtuais, maquiados pela incompetência narcísica.





Será insuportável se olhar e ver as marcas de um eu, que precisa de um oleiro para refazer o seu vaso rachado? Rachado pela ação da onipotência, da pequenez, da presunção, da arrogância ou será o contrário? 

Como revelar uma casa bonita por fora, prestes a ruir a qualquer momento? - Suas bases revelam a rigor um alicerce formado pela insegurança, solidão, medo, sentimento de inferioridade, incapacidade em amar o outro, como reflexo da sua própria imagem. Há muito que aprender nesta vida.



O homem contemporâneo alçou vôo nas descobertas do novo século, entretanto, aportou a âncora nas muralhas de si mesmo. Vivem no cárcere das emoções, tomados pelo pavor da violência e pelo torpor da convivência – já não confiam mais no outro como reflexo da sua própria confiabilidade. São tão inconfiáveis, levianos, intransigentes. A constatação é simples, tênue, sutil: - A culpa será atribuída sempre ao outro. 


George Elton Mayor – um cientista social australiano postulou a teoria das Relações humanas, contrapondo à abordagem Clássica da Administração, fazendo brotar a Teoria das Relações Humanas.
A experiência teve inicio em 1927, na cidade de Chicago, numa fábrica de montagem de relés, situada no bairro de Hawthorne. A finalidade desta experiência era de realizar um estudo sobre a fadiga no trabalho. Foram selecionadas seis operárias que trabalhavam na sala de provas da referida fábrica. A ênfase focava como manter o ritmo de produção, controlando com precisão algumas condições físicas, como temperatura, umidade da sala, duração do sono na noite anterior, alimentos ingeridos, era objeto de observação.
Independente das condições ambientais e da estrutura de benefícios oferecidos às trabalhadoras, elas declaravam gostar de trabalhar na sala de provas. A supervisão era branda, o ambiente amistoso e sem pressões, a conversa era permitida e não havia temor ao supervisor. As moças fortaleciam os laços de amizades, as quais se estenderam para fora do trabalho. Conclusão: - Tornaram-se equipe, desenvolvendo lideranças e objetivos comuns.
Os pesquisadores começavam a desvendar um caminho que aportava a âncora na terra fértil do coração humano. Eles observaram que os fatores psicológicos alteravam de maneira singular o comportamento dos funcionários. Era um misto de constatação, onde o comum passava a obter o corpo formado pela valorização da natureza humana.


  As pessoas podiam falar o que sentiam a respeito da organização como um todo, da mesma forma como poderia conhecer os problemas de seus companheiros de trabalho. Resultado - o crescimento era dual. A organização se integrava a um organismo. A sua interação, impulsionava ao equilíbrio - um feed back reforçado pelo zelar do bem-estar entre as pessoas. Caso surgisse um sabotador, tipificado como "delator", visando comprometer a estabilidade conquistada, o grupo não aceitaria. O antivírus era produzido pela desagregação deste valor, reforçando a solidariedade entre eles. Não seria mais aceito qualquer ação que visasse prejudicar o companheiro de trabalho.






Precisamos do outro, como a vida imprime este complemento. Não nascemos sós. Mesmo no trabalho de parto no meio da selva, sem recurso algum, sempre haverá o dual – a mãe e o filho. O filho e a sua própria existência interagida na seiva da vida. A biosfera, o biossistema mitigando o princípio da existência.

Como já dizia Fernando Veríssimo: “- Pensando bem em tudo o que a gente vê, vivencia, ouve e pensa, não existe uma pessoa certa ... porque a vida não é certa. Nada aqui é certo! ... O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo, amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo...E só assim, é possível chegar àquele momento do dia em que a gente diz: "Graças à Deus deu tudo certo"
  


Caminho pelas ruas. No compasso de meus passos, dirijo-me ao cumprimento da agenda diária. Entro no carro. Passo batom. Penteio os cabelos, coloco o cinto de segurança. Oro ao meu querido Deus para me acompanhar e enxergar o que não quero ver, para me tornar uma pessoa melhor.
Acho que o espelho está se refletindo agora ...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

AS BAGAGENS DO MEU TEMPO



Os poetas viajam nas bagagens do pensar. Levitam como folhas ao tempo e aportam nas terras do coração. Como bem expressava Cora Coralina “- Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe; braço que envolve; palavra que conforta; silêncio que respeita; alegria que contagia; lágrima que corre; olhar que acaricia; desejo que sacia; amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Lembro-me de você. Você... Eleger seu nome? Não. Prefiro não ser leviana. Tantas bagagens trago no apreço das lembranças. Madrugada silenciosa, vento frio, sereno, tomado pela fumaça do café fresquinho, recém passado. Divido com meu companheiro enternecido – meu caderno de boas lembranças. Descortinar este protagonista que me tornara tão viva, madura, faz-me levitar. Registrar o alvitre de um vagão que me atrai ao porto, lugar de partida e chegada de uma estada chamada coração.
As lembranças cintilam o olhar para o horizonte. Lembro-me da maneira como fui criada. O maior legado que me inspira todas as manhãs – meus pais. Eles me enriquecem com suas experiências. Suas vozes são músicas regidas pela sabedoria. Ao conversar ensinavam como se tornar vencedor. O norte para vencermos todos os embates, diziam eles, virá se amarmos a Deus sobre todas as coisas. Se acalentarmos este amor incondicional, grandes triunfos serão colhidos ao longo da vida. Na receita, não poderia faltar - a determinação, a perseverança, o altruísmos, imbatíveis nesta estrada íngreme e interessante. Eles me ensinam tanto a cada dia, e sempre acrescentam com seus ensinos, o segredo: – O nosso olhar deverá refletir a expressão do poeta - Sou pequenininho, mas sempre olho para os montes.
 O diálogo dos meus doces exemplos, aprazíveis como sempre, era trazido pelas suas experiências. Nunca ensinavam o que não viviam. O referencial de família, de casamento sólido, cheio de amor, corria nas minhas veias. Nunca poderia apartar da coerência de seus ensinos. Sou tão feliz por isto. Tão grata. Todos os dias os beijo, converso, peço conselho, compartilho e não deixo um só dia que seja - expressar o meu amor por eles. Não só com palavras. Mas com gestos que os façam compreender o meu reconhecimento incondicional.

                               
A nossa infância, adolescência fora adoçada pelo acolhimento.
A casa era cheia. Os amigos sempre foram bem recebidos. Como excelentes anfitriãs, os deixavam inteiramente à vontade. Eram momentos alegres e muito leves por sinal. Até hoje as pessoas lembram e perguntam pelos meus pais. Resultado: - Aprendi a receber amigos de meus filhos como filhos também. Apreciamos filmes com deliciosas pipocas. Dividimos momentos pelo sentimento agradável que alguma coisa faz nascer em nós. Nossa casa é lar. Aconchego é o seu nome.



No recôndito lugar de boas lembranças, os raios de sol se projetam para o alvorecer do dia. Eu e os meus três irmãos éramos despertados pela vitrola de meu pai – um aparelho de som usado para tocar discos de vinil, tinha amplificador e alto-falante, compondo uma só peça.  As vitrolas podiam ser grandes ou portáteis. Elas podiam caber dentro de uma maleta, já outras eram como móveis em casa tinham gavetinhas e tudo mais, parecendo inclusive um armário. A nossa era portátil. Aliás, não era nossa, fora emprestado por um amigo de meu pai, chamado Francisco. Meu pai nos acordava pela musicalidade. Louvores a Deus que adentravam em nossa mente com leveza e nos inspirava para o dia a dia.
Na hora do café da manhã, nossa mãe fazia aquele cuscuz cheiroso, ovos fritos deliciosos, aromatizado pelo café recém passado. Era momento de acolhimento e respeito. Provávamos o Pão – A Palavra de Deus era lida naquele momento. Aquela Palavra preparava a nossa mente para a vida. Depois meu pai orava a Deus. A Oração mais doce, a mais sublime que ouvíamos, a qual reconhecia a nobreza do nosso Pai do Céu que estava conosco naquele momento. Agradecíamos pela vida, pela noite de paz, pelo novo dia e pelo pão a mesa que nunca faltava.
As lembranças que trago no meu peito, são indescritíveis, Translúcida memória, ligação da última nota de um compasso vital Prezo nesta jornada o que há de melhor. Afago nas bagagens do meu pensar, você que compõem a minha história com notas de um canto agradável.

No trilho da vida viajo todos os dias. Oh estação que me abriga. Lugar de partida e de chegada, época em que se faz uma colheita, lugar de repouso, morada, estada, paragem. São vagões puxados pela locomotiva da vida. Neles levamos um pouco de nós registrados pelas pessoas apanhadas em cada estação.
Caminhamos ao vento, a sombra de uma árvore, às vezes, sob o sol ardente, tomados no cair da noite pela brisa fria do luar. Quicar nas ruelas desta vida, sorrir para o passado, agradecida pelo frescor das lembranças que me fizeram tão feliz.


E como diria o saudoso Mário Quintana:

“- A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa... Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo... E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."