(Texto de Conceição Honorato Oliveira)
Hoje
escutei algo
tão sublime de uma jovem viúva. A dois anos de luto pela emboscada
desleal ao fenecer da
vida de seu marido, lutando em preservar semanticamente o luto. Na grande maioria,
o luto é um processo durante o qual um indivíduo consegue desligar-se
progressivamente da perda de um ente querido.
No caso desta jovem senhora, sua dor advém da ruptura de uma
história de amor vivida intensamente, incondicionalmente com tanta profundidade
- Um sentimento tão puro e forte. Preservá-lo será objeto de uma vivência
intensa aos momentos passados. Um tributo prestado a alguém tão vivo em seu
coração. E, mesmo partindo desta vida, o
princípio de
existência, de força, de entusiasmo, foi marcado na essência de suas doces
lembranças. Seu amor partiu para morar na terra adubada do seu coração.
Amor
assim - Como alcançá-lo? Como permitir desabrocha-lo?
Certo
dia esta senhora após tantos anos, recebeu uma ligação. Do nada. Uma luz no
final do túnel. Uma voz conhecida em meio ao desconhecido. Um amor fortuito
vivido na adolescência, sobreviver às intempéries do tempo.
- Como
pode algo assim sobreviver a tanto tempo? Uma marca indelével. Uma lembrança
navegada nas águas translúcidas da emoção. Uma cristalização mantida ao som do
vento suave, da leveza do tempo, ecoar em meio às lacunas veementes do coração.
Terra do eu íntimo e indescritível.
Separados
um dia pelo ultimato do pai ao desabonar o seu namoro por ser jovens demais -
argumento usado pelo seu genitor na época, a filha tão somente ouviu, escolheu
não magoar o mesmo, e expressou laconicamente a ruptura de um relacionamento
juvenil seguindo os passos de sua caminhada.
Seu
relato revelou um misto de emoção. Uma fronteira temerosa quando a balança
pendia para um dos lados - O amor puro e verdadeiro, rompido funestamente por
um ataque fulminante do coração e um despontar quem sabe de um novo amor.
Um
sincretismo veemente. Qual doutrina seguir? - O que fazer mediante a síncope da
emoção, às vezes, vista como sabotagem de uma afável história de amor? - O que
dizer a uma voz do outro lado do mundo, distantes a linha do tempo? - O que
fazer durante uma provocação doce e afável ecoar – Nunca te esqueci! - Como
agir diante de uma situação não planejada, não vislumbrada, não desejada, pelo
menos nos dissabores presentes em sua vida, após a partida do seu grande amor?
- Seu
coração estava fechado para balanço, trancado a sete chaves, cujas chaves estavam
jogadas ao labirinto do nunca. As portas estavam lacradas ao acesso de um novo
amor!
Às
vezes, passo a indagar se o despertar de um amor será resultado de um cultivo
íntimo e pessoal? Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a
pessoa pela qual se sente afeição, uma afinidade movida pelo entusiasmo ou
grande interesse.
Penso que
o brotar desta essência chamada amor, deva pulsar da consciência íntima do ser
humano. Sua percepção deve refletir o que se passa em nosso interior. Uma
delicadeza sedutora ao atrair naturalmente aqueles que comungam deste mesmo
pensar. São ondas emitidas pela própria crença no amor refletido no universo
alheio.
- Como
se fazer presente na vida das pessoas em meio às turbulências da vida?
Aquela
voz pronunciada pausadamente exprimia um sentimento aquietado em sua memória. Sentimento
adormecido, talvez, como um sono reparador, tranquilo e aconchegante, despertado,
quem sabe, ao sonho do encontro, de um dia esperado, nas aspirações de um vagão
viajante das trilhas da saudade.
Discorro
sobre o modo como se relacionar com as pessoas e a vida. Como reconhecer a
importância de seu semelhante?
Penso como
as pessoas que semeiam este sentimento, devem atrair para si o belo, o novo, assim
como, admiradores e espectadores de sua plateia - Um eu pujante, altivo, no
curso natural do frescor de suas ideias e leveza. Seu destino prima em aportar
seu barco no porto do encontro.
Penso mais
uma vez, na forma casual, como se deu o fato narrado pela jovem viúva. Sem
pretensão alguma, alguém chegar ao quarto de uma memória insólita, sem ao menos
saber da mudança da situação – Antes inquilino adquiriu subitamente e
timidamente, a primazia de pertencer à morada conquistada um dia pelo afeto,
respeito, primazia do apreço de família.
As lembranças, muitas vezes, levitam
gradativamente. São palavras lembradas, trocadas pela afabilidade, são gestos
marcados pela magnitude do momento. Um perfume exalado nas tardes de outono, pelas
gargalhadas presenciadas em meio à juventude. Este doce recordar, nos move a
nos encontrar!
Os
ritos de passagem em nossa vida quando saudáveis, se alimentam deste néctar –
as boas e inesquecíveis lembranças, despretensiosamente, um dia, quem sabe, nos
fazer uma surpresa.
Amar –
um mistério selado pela centelha da vida. A crença de um sentimento gerado nas
bases do nosso pensar, rabiscar as nuance de seu valor e do grande significado representado
por este sentimento. A silhueta de um movimento chamado amor, um compasso cadenciado
nas cifras de uma melodia, ecoar na linda canção ao revelar um segredo - vale a
pena amar.
Viver a medida das oportunidades, de um sempre novo amanhecer e caminhar
sem ao menos saber se vai chegar à terra que se quer apossar. A terra do
coração, curvas equidistantes de um lugar silencioso, particular, inerente a
cada pessoa. Talvez, o que menos, se pretenda, intencione pela posse legal de
alguma coisa, como um direito garantido e incontestável.
Posse não é conquista.
Posse é força. É Propriedade adquirida. É apólice de nada. Obrigação ofuscada
pela razão. Conquistar reflete em sua essência outra coisa. Conquistar
significar ganhar um presente. Seu valor reverbera a leveza de um dia almejado.
Conquistar transluz a beleza de um chegar almejado – uma noite despertada a um
luar clareado; um olhar que se encontrar no espelho de outro olhar. Conquistar
é dar a conhecer o que se deseja. Conquistar o respeito, admiração, confiança,
roupagem de uma esperança cumplice e casual. O verdadeiro encontro sem amarras
e o que amarra é a liberdade em desejar o outro, sabendo que ninguém é
propriedade do outro - Ilusão é o nome desta conjectura. Seu destino é areia
movediça.
Para
amar o outro, é preciso se amar. Deus ao gerar o homem a sua imagem e
semelhança, outorgou ao homem o arbítrio para o seu caminhar, porém, revelou o
segredo da verdadeira felicidade: - Amar a Deus sobre todas as coisas (O Amor
perfeito) e seu semelhante como extensão de si mesmo.
Amar a
si mesmo remete ao resgate de uma confiança desafiadora aos embates despontados
no cerne da alma, embora, algumas vezes, o nosso próprio eu passe a nos
sabotar, nos envergonhar, nos subjugando ao um eu déspota e intransigente.
A coerência das relações conquistadas apresentam desfechos
adversos. Atraímos pessoas atribuindo às mesmas, o poder de nos fazer feliz,
embora, em certos momentos, o ser humano possa andar em linhas divisórias,
fronteiras permeadas entre um eu merecedor e não merecedor – Um latejar sonoro
ecoado as quatro cantos – Será que mereço ser feliz? - Será que devo aceitar
este destino engessado e incontestável? Será o outro de fato, responsável pela
felicidade? Será que o mesmo não busca incansavelmente por este mesmo alento?
Sorrateiramente um sentimento de resignação e acomodação se
instala. Princípios que se estabelecem como verdades absolutas. Conclusão: -
Nos tornamos reféns de uma vida sem sabor.
Ao
respeitarmos à autonomia do outro, uma força natural nos impulsiona a voltar
para o lar e abraçar o bem amado. O apetite da vontade se enche d’água.
Sentimos impelidos a nos render a força da saudade enternecida. Semente
germinada pelo arbítrio do amor.
As
pessoas compartilham suas histórias e cintilam em nossas vidas como pequenas
chamas lampejando uma história cheia de significados. Basta tão somente um dia.
Um momento. Um compartilhar que nos levam a uma viagem ao nosso pensar, um
refletir, um mudar despertado pelo poder da escuta.
